Por que as pessoas estão usando a IA como terapeuta?

Nunca foi tão fácil conversar com alguém que ‘escuta’ sem julgar. Falar sobre suas angústias, traumas e inseguranças sem o risco de se colocar em uma posição vulnerável parece tentador, mas será que é suficiente?

 

Atualmente, temos vivido um grande avanço tecnológico com o advento da inteligência artificial conversacional, como ChatGPT, Replika, entre outros. O cenário pós pandêmico trouxe consigo um ‘boom’ de quadros como burnout, solidão e ansiedade, o que se tornou um contexto fértil para buscar alternativas tecnológicas.

 

Com o aumento da acessibilidade, muitas pessoas têm recorrido à IA para conversar sobre emoções, buscar conselhos ou até substituir a terapia tradicional. Isso ocorre muitas vezes devido à dificuldade de encontrar atendimento psicológico acessível e rápido. Soma-se a isso o fato de que a IA está “sempre disponível”, sem julgamentos, o que pode atrair quem tem vergonha de buscar ajuda.

 

No entanto, as limitações e riscos são substanciais. A IA carece de presença emocional genuína, reciprocidade, empatia e capacidade de construir confiança epistêmica, elementos centrais para mudanças profundas em psicoterapia. O vínculo terapêutico é a base do processo — afeto, leitura emocional, nuances não verbais, presença — nada disso pode ser verdadeiramente replicado por um algoritmo.

 

Além disso, a IA não pode diagnosticar, acompanhar crises, nem lidar com risco de suicídio. Há riscos de pseudo-terapias, dependência tecnológica, privacidade de dados, desinformação (“alucinações” dos modelos), e agravamento de quadros graves, como psicose ou risco suicida, quando a IA é utilizada como substituto exclusivo. O uso indiscriminado pode reduzir o contato humano, favorecer exploração comercial e criar vulnerabilidades éticas, especialmente em populações com trauma ou vulnerabilidade relacional.

 

A literatura científica atual revela que intervenções baseadas em inteligência artificial, especialmente agentes conversacionais (chatbots), apresentam eficácia moderada na redução de sintomas de depressão e ansiedade em adultos e jovens, principalmente em quadros leves e subclínicos, com efeito significativo após 6-8 semanas de uso. Em populações jovens, a IA mostrou efeito moderado a grande para sintomas depressivos subclínicos, mas resultados não significativos para ansiedade, estresse ou bem-estar geral. Os benefícios tendem a ser mais evidentes no curto prazo, com diminuição do efeito em seguimentos mais longos.

 

Em comparação com a psicoterapia tradicional, os resultados de IA são inferiores em quadros moderados e graves. Psicoterapias convencionais, como a terapia cognitivo-comportamental, apresentam efeitos grandes para depressão, ansiedade, fobias e transtorno obsessivo-compulsivo, com taxas de resposta superiores e sustentadas.

 

Em quadros graves, como psicose, risco suicida ou transtornos de personalidade, não há evidência robusta de eficácia da IA isolada, sendo a psicoterapia presencial o padrão ouro.

 

Se sabiamente utilizada, a IA pode ajudar como ferramenta complementar ao tratamento, podendo ser usada como diário emocional, lembrete de técnicas de respiração, simulação de role-playing para habilidades sociais, e ainda pode facilitar o acesso à informação e reduzir o estigma relacionado à saúde mental.


A IA pode complementar o cuidado, mas não substituí-lo.

 

O terapeuta humano oferece empatia genuína, insight clínico e compreensão contextual — dimensões que não podem ser “programadas”. Cabe aos profissionais se atualizarem para integrar tecnologias de forma ética, sem perder o foco no vínculo e na escuta humana.

 

A tecnologia pode simular compreensão, mas não sentir. E talvez seja justamente no sentir que a cura acontece.